
Tem aqui um quarto com o nome dele – o quarto do Torcato -, mas não vai voltar a usá-lo; Deixa amigos – vários – a quem ofereceu livros, fez entrevistas, conversou e desconversou; Já era um pouco de cá. Sentia-se bem aqui. Gostava dos cozinhados da Nazaré e das favas guisadas do sr. João; As minis com o Carmo e o Paulo sabiam-lhe bem; As sestas, preparavam-no para as noitadas no quintal: «Gosto dos teus amigos, pá», dizia-me. Falava de agricultura e toiros com o Quim, de política com o João e o Zé, de literatura com a Anabela e a Teresa; de tudo com todos: com as Ritas, o Zé Luís e a Luísa, com os João, com o Víctor, a Mimi, a Ilda... Ao telefone perguntava por eles e não se cansava de contar a rir como o Chino o tinha tentado convencer a aceitar um pato vivo. Partilhámos aventuras, alegrias e desilusões. Partiu ontem não sei para onde. Se soubesse havia de lá ir buscá-lo!
Morreu o "Desvairadão", ínclito bracarense, anarco-surreal-situacionista, de cuja prosa elegante e truculenta todos beneficiamos. Companheiro de todas as fronteiras, aristocrata das ideias, o Torcato vai fazer muita falta. Sejamos sérios, anda por aí muita canalha que vai desatar a insinuar que ele foi um grande jornalista... mas... tinha o defeito de odiar certos reflexos do poder económico no texto jornalístico de alguma fauna de futuros administradores. Com Torcato vai-se a prosa mais cáustica e terna da nossa depauperada imprensa cultural. Sossega camarada, vamos vingar-te!
Barcaro, in site do PÙBLICO









