Quem conta um conto...Mar Seara
De nada lhe serve a boina com o sol a
marrar de frente. Entre o monte e a povoação não há chaparro que lhe possa valer. Tudo descampado. Apesar da hora o
magano já queima, mas tem mesmo de ser. A camioneta não espera por ninguém, e Zé Galhofa não quer perder esta viagem por nada deste mundo.
Foram anos e mais anos a sonhar com o assunto. Sozinho no campo, à volta com a
bicheza, mal tinha tempo para, uma vez por mês, ir à vila ver do avio, quanto mais
folgazar um dia inteiro numa passeata. Agora era diferente. Reformado, viúvo, com os filhos
desmamados, podia-se dar ao luxo de aproveitar as viagens organizadas pelo presidente da Junta para os velhotes espairecerem.
É certo que a pequena courela e a meia dúzia de galinhas, coelhos e o bácoro para sustento próprio ainda lhe davam luta, até porque a reforma, apesar de bem vinda, ia-se toda no «raio dos medicamentos». No entanto, quando voltasse «lá pela tardinha» ainda viria muito a tempo de lhes dar a ração e regar os nabiços...
Desde gaiato que sonhava com o dia em que veria o mar com «aqueles que a terra há-de comer». Quando foi às
sortes ainda esteve tentado a oferecer-se para a Marinha, mas o pai cortou-lhe as pernas: «Nem Marinha, nem farinha. Não penses nisso que fazes por cá muita falta. A mim e ao patrão»... - decretou. Depois de, em criança, ter sido seu
ajuda na guarda dos porcos, passaram a dividir todo o trabalho no monte. Tornava-se o serviço mais leve e era mais algum a entrar em casa.
A tropa tinha-a feito em Estremoz, a poucos quilómetros do monte onde nasceu, e daí não arredou pé até passar à
peluda, continuando, assim, por realizar esse seu grande desejo, ver o mar.
Nem sabia de onde lhe tinha nascido aquela ideia. Da família não era de certeza. Tudo gente do campo, de água só conheciam os ribeiros e as nascentes das redondezas. Na escola também não fora, pois era sítio de onde nunca tinha saído... Para muita pena sua que «saber fazer o nome» ter-lhe-ia dado jeito em várias ocasiões. Mas «mais vale tarde do que nunca» e, hoje, chegara o dia. O grande dia.
Chegado ao largo,
aprochegou-se da
carreira. Como ainda faltavam alguns minutos para a partida, resolveu puxar da bucha e comer o almocito. Hábito antigo de horários campestres. Na vila, a esta hora da manhã, havia muita gente que nem o
mata-bicho ainda tinha
batido. Navalha numa mão, pão e queijo na outra. A pequenos golpes, certeiros, ia lascando o petisco. Só lhe faltava a bebida. «Logo mais bebo», pensou. Daria um salto à tasca do Garrafão e aproveitaria para se precaver para a jornada «mudando a água às azeitonas».
A rapaziada da sua idade foi arribando. Homens para um lado, mulheres para outro. As conversas eram as de sempre, próprias destas idades: «O Tóino Catrapuz lá se foi, coitado»... «É verdade, coitado. E eu também não ando lá muito bem. As cruzes não me deixam em paz. Só à força de drogas é que cá me vou arranjando»...
A viagem prometia ser curta. «Menos que um fósforo», tinham-lhe dito. Daí a nada estaria a mirar o mar. Pela janela do autocarro olhou a planície ondulante, com o vento a inventar
carneirinhos nas searas. A viagem tinha começado.
A camioneta cheirava a nova, com belos bancos estofados a veludo e, vejam lá, televisão a cores. A cores! O seu velho aparelho, a preto e branco, de vez em quando, passava imagens dos grandes mares deixando-o «a modos que assarapantado»... Era como que um gosto e irritação. Tudo ao mesmo tempo. Um país com tanta costa e ele, a meia dúzia de quilómetros, sem nunca ter visto o mar.
Já não faltava tudo. A Aldeia Nova já tinha ficado para trás, e estavam agora a entrar na auto-estrada. Uma hora, mais coisa, menos coisa, estaria ao pé do Oceano.
Chico Zangado, seu companheiro de jornada, não percebia a ansiedade do Galhofa: «Ó homem, olha que água é água em todo o lado»... Pudera, tinha ido ainda novo para a Outra Banda e mar, por lá, era coisa que não faltava...
Estavam a chegar. «Por favor, não se afastem uns dos outros. O almoço é ao meio-dia no sítio que lhes vou indicar», ouviu-se nas colunas da camioneta...
Foi dos primeiros a sair. Mal esperou que a doutora fizesse as últimas recomendações. Virou as costas ao sol e encaminhou-se para poente. Rumo ao mar.
Ao virar da esquina, uma enorme maré cheia espraiou-se-lhe olhos dentro. Grandiosa. Imponente. Azul, ouro e prata.«Ó compadre, é bonito, não é ?! Tão bonito que até parece uma seara...»