História curtaMesmo dizendo nada não deixava de falar. Era assim que o via. Era assim que ele se via. Às seis, todos os dias, Verão ou Inverno, lá estava atrás do balcão. A televisão há muito que se tinha calado, reconhecendo a derrota, face a tal concorrente. Os clientes, habituados ao vendaval de palavras, adoptavam tácticas diferentes tentando evitar a enxurrada de sons: uns nada diziam, outros, ainda com um pé de fora, atiravam logo o pedido e apenas os mais temerários se esforçavam por gritar mais alto que ele.
Nada o demovia. Esperava pacientemente a oportunidade e, quando apanhava uma aberta, metia a palavra como uma bandarilha no cachaço do touro. Não falhava. Era certeiro e selectivo. O que dizia a um não servia para outro.
Vezes houve em que o «Jirómino» quase passou o risco, mas não há notícia de desentendimentos com a clientela. Fazia-se de parvo, mas não o era de todo.
O antigo proprietário da tasca, era diferente. De outra geração, foi obrigado por força do progresso a comprar uma máquina de café «de ligar à electricidade» para a velha taberna. Os mariolas da terra, faziam bicha ao balcão para lhe pedir um cafézinho da dita cuja «malvada» sempre desligada. «Desligada, sim! que a luz custa dinheiro e não dá jeito cada vez que me pedem um café estar a ligá-la à corrente. Toma lá cinco coroas e vai bebê-lo noutro lado»..., dizia o velho taberneiro atirando, com desprezo, uma moeda para cima do balcão.
O Jirómino, não! Desengane-se quem pensar que por ter passado grande parte da vida a guardar gado - primeiro como ajuda, mais tarde como «moiral» - não sabia dar contas à vida: «se uma vaca tem quatro patas, duas hão-de ter oito. Passa para cá o dinheiro e põe-te ao fresco»...
Quando, finalmente, ficava sozinho, abria a vitrina e punha-se a ajeitar a mercadoria dentro das travessas de alumínio: «Vá, chega-te para lá»... dizia ele para os queques e tortas, dando-lhes vergastadas com a pinça dos bolos, como se tocasse o rebanho para a cerca.
Certa manhã, entrei no café e estranhei o ambiente. Até o roufanhar da televisão se ouvia. Olhei de repente para o balcão, mas ele lá estava. Pedi uma bica, abri o jornal e, escondido pelas folhas, mirei os presentes à espera de descobrir nas suas caras explicação para tal coisa. Serviu-me o café sem abrir o bico. Ninguém arriscava perguntar-lhe, directamente, a causa de tão estranho comportamento. Até porque a sua cara denunciava algum sacrifício e todos sabemos que o sofrimento alheio merece respeito. Os clientes matinais iam saindo aos pares e, na rua, comentavam baixinho a situação. «Não deve ser coisa boa», dizia um. «O Jerónimo calado é o mesmo que um ribeiro sem água», concordava logo o outro.
Ao almoço, a situação mantinha-se. O silêncio continuava a ser de ouro. Às três horas saiu de mansinho, sem nada dizer, dobrou a esquina, fez os duzentos metros que o separavam da farmácia de olhar cabisbaixo, abriu a porta de vidro e entrou.
Razão tinha quem dizia que a coisa devia ser grave. Ninguém se lembrava da última vez em que ele tinha ido à farmácia. Devia ser caso sério.
Minutos depois regressou ao café. Trazia um saco de plástico com uma embalagem. Sempre em silêncio, dirigiu-se à porta do fundo que dava acesso à sua residência. Passados alguns instantes, voltou sem uma palavra.O Antunes não se conteve. Emborcou a média de uma vez, pagou e raspou-se pela porta a grande velocidade. Passados dois minutos já estava de conversa com a Rosa da Farmácia e daí a outros dois estava de volta à tasca com um sorriso estampado na cara. No meio das sala, chamou para si as atenções e, com ar de gozo anunciou: «Pessoal, o Jerónimo apanhou uma pontada de ar e ficou afónico»...